
A semana passada escrevi que, em princípio, iria votar nas eleições presidenciais. Em princípio, porque nunca se sabe um coronavírus vem parar cá a casa dentro de uma encomenda e temos que ficar dez dias sem pôr o pé na rua.
Cambridge, onde vivo, e Londres, onde está a minha mesa de voto, estão separadas por pouco menos de 100 km e, nos longínquos tempos em que íamos à capital britânica, o comboio era o modo de transporte preferencial. Demorava 50 minutos, deixava-nos no centro e não era excessivamente caro fora das horas de ponta.
O problema é que agora os comboios podem transportar coronavírus nos assentos, agarrados aos varões ou debruçados nas janelas com as glicoproteínas ao vento. Pelo que a solução passou por levar o carro até ao centro de Londres. Algo que demora o dobro do tempo, provoca o dobro das emissões de CO2 e faz perder o triplo da paciência.
Para quem não sabe Londres tem portagens urbanas no centro e pagam-se quase 20 euros para andar nessa área de carro durante o dia. Curiosamente, o Consulado de Portugal fica dentro dessa área, por isso tivemos que analisar o mapa e encontrar um parque de estacionamento mesmo no limite da zona onde se pagam as portagens e fazer o resto do percurso (cerca de 20 minutos) a pé, desviando-nos dos coronavírus que iam aparecendo pelo caminho. Assim, poupar-se-iam esses 20 euros e pagaríamos apenas cerca de 6 euros por hora de estacionamento (um excelente preço que a parkopedia indicava para um dia de fim-de-semana em Londres).
E assim, lá fizemos a viagem em direção ao parque, tudo pacífico, poucos coronavírus na estrada até que passada hora e meia chegámos ao limite do parque. Só que, não nos apercebendo onde era a entrada chegámos a um semáforo onde era obrigatório seguir em frente… para a zona das portagens urbanas. Se Londres fosse Portugal, este problema era resolvido com uma marcha atrás e uma inversão de marcha.
Ali também podia ser resolvido da mesma forma mas acrescentava-se sempre uma foto do carro a ser recebida em casa com uma multa para pagar. E como 20 euros é menos que 60 lá fomos nós para a zona das portagens dar uma volta ao quarteirão para chegar ao mesmo sítio.
Foram os 500 metros mais caros que já fiz. Para completar, os preços que tinha visto para o parque de estacionamento estavam desatualizados e agora era o dobro do preço. E assim desaparecem 40 euros em 3 minutos. Votar no estrangeiro em termos de pandemia é um luxo ao alcance de poucos.
Seguiu-se a pequena caminhada em que pudemos testemunhar que ainda existem ruas, pessoas e aquele sol frio dos invernos britânicos. Por incrível que pareça, apesar dos coronavírus pulularem pelo centro de Londres, é possível ter aquela sensação estranha de ver o mundo para lá da nossa rua. Muito estranho, parecia estar em 2019 mas com um terço das pessoas.
A fila no consulado não era longa e em dez minutos conseguimos entrar no edifício. Foi mais uma estreia para mim. Em oito anos e meio nunca consegui tratar de assuntos consulares. Sempre que se tenta marcar qualquer coisa lá temos que esperar seis meses por uma vaga. E ali, naquele dia, sem marcação, conseguimos entrar num dos edifícios mais impenetráveis, aquele que aparece no Livro do Guinness como o maior arranha-paciências do mundo.
O dia de eleições está para o consulado português tal como o dia da “Marcha para Salvar a América” está para o Capitólio: nunca ninguém consegue entrar num dia normal mas, por causa de um presidente, de repente o edifício é invadido por milhares de pessoas que acham estar a salvar a democracia.
A diferença é que em vez de ter no seu interior congressistas e senadores em pânico, este edifício tinha senhores a folhear cadernos cheios de nomes e a dizer constantemente: “Posso ver o seu cartão do cidadão outra vez? Não consigo ver o seu nome na lista”. “Chama-se Luís? Luís Miguel ainda por cima? São tantos aqui na lista”. “Mas não está por ordem alfabética?” “Sim, mas são tantos!”.
E, no final de colocarmos o papelinho na urna todos saíam do consulado sem que fosse necessária a intervenção da polícia de choque. Todos voltaram a casa, desviando-se de novos coronavírus. A ver vamos quantos conseguiram escapar.
Uma sentida homenagem aos senhores e senhoras dos cadernos, além da tarefa dificílima de encontrar nomes numa lista alfabética tiveram que arriscar a apanhar o vírus por contactarem milhares de pessoas. Posso ter brincado um bocadinho com eles, mas merecem todo o respeito.
Por favor .







